Tell him all of how you feel.

Desde que me conheço por gente, sinto culpa. Culpa por meus pais terem se separado. Culpa por ser gay. Culpa por não se sentir merecedor de amor, afeto, carinho, atenção. Culpa por eu ser hoje do jeito que sou. Culpa por minha vida ser do jeito que é.

Não honra.

Não mérito.

Culpa.

É muito difícil pra mim falar sobre coisas extremamente pessoais. O sentimento de exposição me apavora. Às vezes fico me perguntando quando que eu me tornei… assim.

Fico tentando adivinhar e pensando que eu se eu soubesse e se eu pudesse voltar nesse dia, teria feito tudo diferente. Eu queria poder acertar. Enxergar os dias com mais cores, com mais vida. Eu queria… ser feliz. Plenamente feliz. Agora mesmo estou sentindo culpa. Culpa porque me parece que estou sendo desonesto com as pessoas que se importam comigo, sabe? Desonesto por dito hoje cedo no telefone pro meu pai que estava tudo bem, que eu estou bem e feliz, e que nada mais me assombra. Sinto culpa por ser desse jeito. Eu sinto tanta culpa, todo o tempo, por tudo que acontece, que minha cabeça dói de tanto que eu penso e repenso e fico remoendo o que foi que eu fiz errado.

Hoje não foi um bom dia. Briguei com uma pessoa muito importante pra mim. E ele me culpa.

Eu não preciso que você diga em voz alta que me culpa. Eu já sinto culpo o bastante. Minha cabeça dói, dói, dói, dói, dói, dói, dói, dói. Lateja.

Tudo que acontece errado é culpa minha.

Minha reação é exagerada. A porra da minha mente é incapaz de entender. Meu coração é incapaz de deixar de se importar – ou pelo menos não se importar tanto.

Todo meu corpo é minha própria armadilha. Meus pensamentos são o penhasco, a corda, o frasco de remédio, de qualquer remédio que me desligue. Eu mal consigo ficar em pé. É difícil respirar. E minha cabeça dói. Não há beleza sobre a loucura e às vezes sinto que estou enlouquecendo. Que quando eu acordo, boto uma mascara e sou um Felipe diferente. Mas é só um deslize – uma porra de um pequeno deslize – que a mascara cai e todo meu corpo se retesa, minhas terminações queimam, e eu quero me machucar. Quero e preciso urgentemente ficar sozinho. Meu corpo vira uma represa e por horas – às vezes dias – tudo o que faço é vazar. E a solidão vem.

Ah, ninguém entende o Felipe, diz minha mente. E como poderia entender? Olha essa zona!

Não me entendo. Como posso estar tão mal?

Quando as pessoas que eu conhecia descobriram o que eu fazia, como eu vivia — elas me perguntaram por quê. Mas não faz sentindo falar com pessoas que têm um lar, elas não têm ideia de como é procurar segurança em outras pessoas, procurar um lar onde você possa descansar a cabeça.*

Eu queria não ser eu. Queria não ser do jeito que eu sou. Queria pensar diferente – sentir menos. Não, não deixar de sentir por completo. Só sentir menos. Menos culpa.

Menos insegurança. Menos dor. Menos pesar. Menos vontade de não ter vontade de existir.

Queria me sentir melhor, sabe? Tem horas – e elas chegam a ser constantes – em que a felicidade vem e fica, e eu me sinto a melhor pessoa. A mais fodidamente feliz. Depois, estou neutro. E depois estou assim, sentindo culpa, culpa, culpa, culpa, culpa, culpa por ser assim, por pensar assim, por agir desse jeito, por pensar assim, por querer isso, não ter aquilo, e pela dor.

Eu digo à mim mesmo e aos meus amigos coisas que só depois, em momentos como esse, que eu realmente me dou conta de que é mais fácil na teoria do que na prática.

É fácil dizer “deixa pra lá”. É fácil dizer “deixar estar”. É fácil dizer “tanto faz”. É fácil dizer “nem dói tanto assim.” É fácil chamar de drama. É fácil dizer que a culpa é minha. Difícil é aceitar a culpa. É carregar o peso de uma decisão visando o bem e arcar com as consequências quando tudo vai por água abaixo. Aparentemente, é fácil agir com a razão e não com a emoção. É fácil ligar o foda-se.

Mas isso nunca funcionou comigo. E sabe o que mais? Me odeio por não conseguir ser assim.

Não tem munição pra bater de frente porque sou fraco demais. Eu até tento – e por um tempo me sinto vitorioso – mas eu caio, falho. E a ferida se abre. E escorre, e me ensopa, e eu apago. Existe uma dor que me faz anular outra, a maior. A maior me consome, me toma, me machuca, me transborda, e eu não quero sentir nada. Eu prefiro apagar e esperar o dia nascer. A luz ajuda, de certa forma, ver as coisas com mais calma, mais clareza.

 

Eu só sei que a hora que a dor passa dá uma paz.

Uma calma.

E mesmo assim não consigo expressar exatamente como me sinto.

Life sucks and then you die.

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2 comentários sobre “Tell him all of how you feel.

  1. Nossa se eu trocar Felipepor Gabriel dá pra dizer que foi eu quem escreveu!
    Pensava que só eu me sentia assim, esse peso imensamente esmagador de culpa que carrego já me levou a fazer coisas terríveis comigo mesmo.

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    1. Sobre fazer coisas ruins em você mesmo eu entendo bem, sabe? E é horrível mesmo. Da mesma forma que é acolhedor saber que tem pessoas que sabem como eu me sinto, é ao mesmo tempo horrível. Quer dizer… tem pessoas nas mesmas condições que eu, talvez até piores, e não gosto nem de imaginar como elas estão – fisicamente e mentalmente.

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